IA muda o papel de quem cria produtos na indústria automotiva

IA muda o papel de quem cria produtos na indústria automotiva

Por João Paulo Melo, designer industrial, empreendedor e líder de projetos em mobilidade

Ao longo de quase duas décadas, a tecnologia na indústria automotiva não mudou apenas as ferramentas de trabalho. Ela mudou o critério de valor de quem participa do desenvolvimento de produtos. Em meados dos anos 2000, boa parte do processo ainda dependia de sketches feitos à mão, marcadores, refinamento visual em softwares de imagem e uma sequência de etapas em que a habilidade individual pesava muito. Hoje, ferramentas digitais, modelagem tridimensional, simulações e inteligência artificial encurtaram ciclos, ampliaram a capacidade de teste e elevaram o padrão de entrega. O ponto central não está na troca do lápis pela IA, mas na mudança de mentalidade: a indústria passou a exigir menos execução isolada e mais capacidade de julgamento.

Segundo a McKinsey, a inteligência artificial generativa pode adicionar de US$ 2,6 trilhões a US$ 4,4 trilhões por ano à economia global, com ganhos relevantes de produtividade em diferentes setores. Na indústria automotiva, essa produtividade aparece na capacidade de gerar variações de conceito, simular cenários, aproximar design e engenharia e testar hipóteses antes de comprometer tempo e dinheiro em protótipos físicos. Isso é um avanço importante, mas também cria uma ilusão perigosa: a de que gerar mais alternativas significa desenvolver melhor. Não significa. Um veículo não se sustenta apenas pela força visual de uma imagem ou pela velocidade de uma simulação. Ele precisa responder a uso, ergonomia, segurança, custo, produção, manutenção e desejo de mercado.

A eficiência também reorganiza equipes. Quando softwares conseguem antecipar problemas, gerar imagens, cruzar requisitos e acelerar validações, diminui o espaço para funções baseadas apenas em repetição operacional. Segundo a Reuters, uma iniciativa aberta da indústria automotiva anunciada pela associação alemã VDA, com participação de empresas como Volkswagen, BMW, Mercedes-Benz, Stellantis e Qualcomm, mira reduzir em até 40% os esforços de desenvolvimento e manutenção e acelerar o tempo de chegada ao mercado em até 30%. Esse dado mostra que produtividade deixou de ser discurso futurista e virou prioridade econômica. O ganho real, porém, não está em substituir pessoas por ferramentas, mas em retirar do processo aquilo que é repetitivo para liberar tempo ao que exige inteligência humana.

A tecnologia enfraquece o espaço de atuação baseado apenas na execução e fortalece profissionais capazes de tomar decisões melhores ao longo do processo. Em um ambiente onde uma ferramenta pode gerar dezenas de alternativas rapidamente, o diferencial passa a estar na curadoria, na leitura de contexto, na viabilidade técnica e na capacidade de conectar estética, função, custo e produção. Fazer continua importante, porém escolher bem se tornou mais valioso. A IA pode acelerar uma rota ruim com a mesma eficiência com que acelera uma boa. Sem repertório, senso crítico e visão de produto, a tecnologia apenas produz mais ruído em menos tempo.

Esse deslocamento também muda a formação de quem atua no setor. Dominar software já não basta, porque o domínio técnico envelhece mais rápido do que antes. O Fórum Econômico Mundial, no relatório Future of Jobs 2025, aponta IA, big data e letramento tecnológico entre as competências de crescimento mais acelerado, ao lado de pensamento criativo, flexibilidade, curiosidade e aprendizado contínuo. Para a indústria automotiva, isso significa formar menos operadores de ferramenta e mais estrategistas técnicos, profissionais capazes de aprender novos recursos sem perder responsabilidade sobre o resultado final.

A passagem do traço manual à inteligência artificial não elimina a importância humana no desenvolvimento de produtos. Ela elimina a zona de conforto. Quem insistir em medir seu valor apenas pela execução corre o risco de competir com máquinas cada vez mais rápidas. Quem entender que seu papel é orientar a tecnologia, filtrar caminhos e transformar velocidade em decisão terá espaço em uma indústria que continuará dependendo de pessoas capazes de fazer a pergunta certa antes de aceitar a resposta mais rápida.

João Paulo Melo é designer industrial, empreendedor e líder de projetos em mobilidade, com atuação em desenvolvimento de veículos, transporte coletivo, mobilidade elétrica e indústria automotiva nacional, com mais de 20 anos de experiência e premiação internacional.

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