Investidores endurecem critérios para healthtechs no Brasil
Por Renata Bonaldi, CEO e cofundadora da SleepUp*
A promessa de crescimento acelerado das startups entrou em rota de colisão com a realidade do setor de saúde, e os sinais desse atrito se tornaram mais visíveis ao longo dos últimos anos. De acordo com o relatório Digital Health Funding 2025, da CB Insights, o volume global de investimentos em healthtech caiu cerca de 18% em relação ao ano anterior, refletindo uma mudança clara de apetite dos investidores, que passaram a priorizar empresas com evidência clínica e viabilidade regulatória comprovada. Esse movimento não é conjuntural, ele revela uma correção de rota. A lógica do “crescer primeiro, validar depois” deixou de ser tolerada em um setor onde erro não é apenas prejuízo financeiro, é risco direto ao paciente.
No Brasil, esse desalinhamento se intensifica porque o ecossistema ainda tenta aplicar à saúde a mesma régua usada em fintechs ou marketplaces. Segundo levantamento da Distrito Healthtech Report 2025, o país já ultrapassa 1.000 healthtechs ativas, mas apenas uma parcela reduzida consegue avançar para estágios mais robustos de validação clínica e aprovação regulatória. Isso não ocorre por falta de capacidade técnica, mas por uma pressão estrutural por escala que ignora o tempo necessário para construir evidência científica. A consequência é um funil natural. Muitas empresas surgem, poucas sobrevivem ao momento em que a ciência deixa de ser discurso e passa a ser exigência.
A crítica recorrente à regulação, especialmente à atuação da Anvisa, costuma simplificar um problema que é mais profundo. De acordo com o próprio Relatório de Atividades da Anvisa de 2024, o tempo médio de análise para dispositivos médicos de maior risco foi reduzido em cerca de 30% após medidas de digitalização e priorização de processos. Ou seja, o gargalo não está apenas no regulador. Está, em grande parte, na falta de maturidade das soluções submetidas. Tratar a regulação como entrave é ignorar que, em saúde, barreira de entrada é também mecanismo de proteção de mercado. Empresas que passam por esse filtro constroem ativos difíceis de replicar, algo que, no longo prazo, vale mais do que crescimento acelerado sem sustentação.
O mesmo relatório da CB Insights mostra que as rodadas mais relevantes de 2025 se concentraram justamente em empresas que já tinham validação clínica robusta e clareza regulatória em mercados como Estados Unidos e Europa. O capital não desapareceu, ele ficou mais exigente. O investidor não abandonou a saúde, ele passou a precificar risco de forma mais racional. Nesse contexto, tentar “atalhar” etapas não acelera o crescimento, apenas antecipa o fracasso.
O paradoxo é que o Brasil reúne condições raras para formar empresas globais em saúde. Segundo dados do Banco Mundial atualizados em 2024, o país mantém custo de pesquisa e desenvolvimento significativamente inferior ao de mercados desenvolvidos, ao mesmo tempo em que opera em um dos sistemas de saúde mais complexos do mundo. Isso cria um ambiente de teste real, onde soluções precisam funcionar em cenários diversos e desafiadores. Quem consegue validar aqui tende a estar mais preparado para competir fora. Mas isso só se sustenta quando a estratégia parte do princípio de que ciência não é etapa, é fundamento do negócio.
Empreender em saúde, portanto, exige abandonar a ilusão de velocidade como principal métrica de sucesso. O que está em jogo não é apenas escala, é consistência. Em um mercado cada vez mais criterioso, vence quem constrói evidência, navega a regulação com inteligência e entende que confiança é o ativo central. O tempo que isso leva não é um problema a ser resolvido, é parte da vantagem competitiva. A pressa pode até gerar tração inicial, mas é a solidez que define quem permanece.
*Renata Bonaldi é CEO e cofundadora da SleepUp, healthtech brasileira de sono que desenvolve soluções digitais e dispositivos médicos para monitoramento e tratamento de distúrbios do sono. Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal do ABC (UFABC), com pós-doutorado em Engenharia Biomédica pela mesma instituição, Renata possui mais de 15 anos de experiência em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias aplicadas à saúde.
