Voluntariado transforma talentos em cuidado no Programa Bem-Estar

Voluntariado transforma talentos em cuidado no Programa Bem-Estar

Às vésperas do Dia Nacional do Voluntariado, celebrado em 28 de agosto, projeto do Instituto Buko Kaesemodel mostra como profissionais podem compartilhar conhecimento para promover autocuidado e qualidade de vida entre mulheres com a pré-mutação da Síndrome do X Frágil

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Dedicar algumas horas, compartilhar conhecimento ou simplesmente colocar uma habilidade profissional a serviço de outra pessoa. O voluntariado pode assumir diferentes formas, mas tem em comum a capacidade de aproximar pessoas e contribuir para transformar realidades. No Brasil, essa atuação ganha destaque em 28 de agosto, quando é celebrado o Dia Nacional do Voluntariado, data criada para reconhecer quem dedica parte de seu tempo e de suas habilidades a ações de interesse social.

É esse princípio que movimenta o Programa Bem-Estar, desenvolvido pelo Instituto Buko Kaesemodel para que oferecer gratuitamente atividades de autocuidado a mulheres com a pré-mutação Síndrome do X Frágil.

Em uma rotina marcada pelo cuidado com os filhos, consultas, terapias e responsabilidades domésticas e profissionais, encontrar alguns minutos para olhar para si mesma pode se tornar um desafio. O Bem-Estar procura justamente criar esse espaço por meio do trabalho de profissionais voluntárias, que transformam seus conhecimentos em práticas acessíveis de exercícios físicos, meditação, yoga e atenção ao bem-estar emocional.

Para Luz María Romero, gestora do Instituto Buko Kaesemodel, o voluntariado tem papel fundamental para que iniciativas como essa consigam chegar às famílias. Ao mesmo tempo, o projeto nasceu da percepção de que era necessário direcionar o cuidado também para as mulheres que, muitas vezes, passam grande parte da vida cuidando de outras pessoas. “Muitas das mães cadastradas no Programa Eu Digo X abrem mão do seu trabalho e sonhos para cuidar dos filhos com Síndrome do X Frágil, sendo que muitas passam a ser cuidadoras de seus filhos, acompanhando a rotina de atividades como psicopedagogia, fisioterapia, terapia ocupacional, entre outras”, afirma Luz María.

Segundo ela, foi a partir dessa realidade que surgiu o Bem-Estar. “Desenvolvemos o projeto Bem-Estar exatamente com o intuito de alertar essas mulheres à prática de atividades físicas, como forma de minimizar os sintomas, já que a pré-mutação tem um quadro clínico que pode progredir com o tempo”, explica.

Cuidar de quem cuida

Foi justamente a importância de cuidar de quem cuida que motivou a terapeuta corporal Manoella Bahr de Souza Pacheco a integrar o projeto. Ela procurava uma iniciativa social em Curitiba quando conheceu o Programa Bem-Estar por meio de Aline Tatsch Dias, professora de Yoga e Ayurveda, terapeuta integrativa e palestrante, que na época era sua paciente.

Manoella já havia tido contato com o universo das síndromes durante um estágio de sua pós-graduação em Saúde da Família na Apae e convive com uma prima com síndrome de Down. Mas ainda não conhecia a Síndrome do X Frágil. A possibilidade de trabalhar diretamente com mulheres despertou seu interesse, especialmente porque esse também é o principal público atendido por ela na terapia corporal.

“Sei da importância de cuidar de quem cuida, pois geralmente são as que menos conseguem tempo para isso e as que mais precisam”, explica.

Ainda no início de sua participação no projeto, Manoella desenvolveu exercícios e meditações curtos, pensados para serem incorporados à rotina sem exigir grandes períodos disponíveis. As práticas abordam temas como acolhimento, presença e autorregulação do sistema nervoso.

“O que fiz de adaptação com os exercícios e meditações foi principalmente a questão do tempo e a facilidade para que possam fazer sempre, como e de onde estiverem, além de trazer temas relacionados ao acolhimento, à autorregulação do sistema nervoso e à presença”, conta.

A proposta ajuda a desconstruir a ideia de que o autocuidado depende necessariamente de uma hora livre na agenda. Alguns minutos de respiração, movimento ou meditação podem representar uma oportunidade para que a mulher volte a atenção para si em meio às inúmeras demandas do cotidiano.

Voluntariado como transformação

Para Aline Tatsch Dias, que participa de ações sociais desde 1996, o trabalho voluntário também representa uma maneira de construir a sociedade que se deseja para o futuro. “O trabalho voluntário constrói a realidade que nós queremos para o futuro. Acredito que o voluntariado tem o potencial de transformar positivamente a sociedade onde vivemos”, afirma.

No Programa Bem-Estar, ela encontrou uma forma de compartilhar o conhecimento acumulado em sua trajetória profissional por meio de atividades que podem chegar às participantes independentemente de onde elas estejam.

Mesmo quando as aulas são gravadas em casa e disponibilizadas online, Aline destaca que existe uma relação humana entre quem compartilha o conhecimento e quem recebe aquela prática. “É uma pessoa, uma professora de yoga, gravando um vídeo para outras pessoas, para mulheres com a pré-mutação da Síndrome do X Frágil. Esse contato pessoal, de pessoa para pessoa, tem um valor imenso”, diz.

Ao preparar as atividades, Aline procura enxergar as participantes, antes de tudo, como mulheres que podem estar cansadas, sobrecarregadas e envolvidas com inúmeras responsabilidades. A condição genética é considerada dentro do cuidado, mas não define integralmente quem participa.

“Eu olho para elas principalmente como mulheres multitarefas, que eventualmente podem estar sobrecarregadas e cansadas. As aulas são feitas para proporcionar um tempo para si mesmas. Ter um momento para respirar e olhar para si é uma ferramenta terapêutica poderosa”, afirma.

Ajudar também precisa caber na rotina

Um dos aprendizados do projeto, segundo Aline, é que o trabalho voluntário não precisa necessariamente envolver estruturas complexas ou uma disponibilidade de tempo incompatível com a rotina profissional.

No Bem-Estar, parte das atividades pode ser produzida pelas próprias voluntárias em casa e posteriormente disponibilizada às participantes. Esse formato permite que cada profissional contribua com aquilo que sabe fazer e dentro do tempo que efetivamente consegue oferecer.

“O projeto me trouxe a autonomia de sentir que eu posso fazer. Posso contribuir dentro da minha casa, com tranquilidade. Essa redução da complexidade e a simplicidade do projeto são um grande ganho pessoal para mim”, relata.

Para quem deseja começar um trabalho voluntário, Aline recomenda avaliar as próprias habilidades e, principalmente, a disponibilidade real para assumir um compromisso. A colaboração pode ocorrer semanalmente, mensalmente ou até em ações pontuais. “O voluntariado nos faz crescer como pessoas, mas precisamos nos comprometer. É importante conhecer nossas habilidades, saber o que podemos oferecer e olhar com responsabilidade para nossa disponibilidade de agenda”, orienta.

Para ela, praticamente todo mundo possui algum conhecimento ou habilidade que pode ser compartilhado. “Cada pessoa pode ajudar com o seu talento. É só se aproximar das instituições”, acrescenta.

Autocuidado sem cobrança

Outro cuidado adotado pelo Programa Bem-Estar é evitar que a atividade destinada ao bem-estar se transforme em mais uma obrigação para mulheres que já enfrentam uma rotina sobrecarregada.

Por isso, as práticas são disponibilizadas de maneira que as participantes tenham autonomia para escolher quando realizá-las. Para Aline, acolher também significa respeitar o tempo de cada uma. “O exercício está disponível em um lugar confortável, para que cada uma acesse no seu melhor momento. Elas têm autonomia para escolher quando fazer. Estar disponível e, ao mesmo tempo, respeitar essa liberdade também é uma forma de acolher”, explica.

A professora considera que até mesmo o excesso de estímulos pode ser percebido como pressão. Por isso, a proposta é incentivar sem cobrar resultados. “As participantes precisam se sentir motivadas e acolhidas, mas sem serem pressionadas. Sentir-se acolhida é o que motiva. O projeto é um convite”, diz.

O Bem-Estar integra as ações do Programa Eu Digo X, desenvolvido pelo Instituto Buko Kaesemodel. As atividades são gratuitas e o formato online permite alcançar mulheres de diferentes regiões do Brasil.

Neste 28 de agosto, Dia Nacional do Voluntariado, histórias como as de Aline e Manoella ajudam a mostrar que a contribuição social não precisa começar com grandes projetos. Pode nascer daquilo que cada pessoa já sabe fazer e da decisão de dedicar um pouco desse conhecimento a alguém que precisa. No Programa Bem-Estar, esse encontro acontece em pequenos gestos: alguns minutos de movimento, uma prática de respiração, uma meditação ou simplesmente um convite para que mulheres acostumadas a cuidar de todos também se permitam cuidar de si.

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