Novo estudo revela que consumo de laticínios integrais não causa ganho de peso e aumenta a saciedade

Novo estudo revela que consumo de laticínios integrais não causa ganho de peso e aumenta a saciedade

Novo estudo reforça que o consumo diário de três porções de laticínios integrais não promove aumento de peso nem piora de marcadores metabólicos quando inseridos em um padrão alimentar saudável

Durante muitos anos, o leite integral e seus derivados foram vistos com cautela devido ao seu teor de gordura. Hoje, porém, novas evidências científicas mostram que o impacto desses alimentos deve ser analisado no contexto da alimentação como um todo, e não apenas pela quantidade de gordura presente em sua composição.

Essa foi a proposta de um ensaio clínico publicado no The Journal of Nutrition, uma das principais revistas científicas da área. O estudo avaliou adultos com sobrepeso e obesidade e demonstrou que participantes que incluíram três porções diárias de laticínios integrais, como leite, queijos e iogurtes, apresentaram resultados semelhantes aos daqueles que seguiram uma dieta com restrição de gorduras, sem diferenças no peso corporal, na composição corporal ou em marcadores cardiometabólicos.

O estudo acompanhou, durante 12 semanas, 74 adultos entre 25 e 60 anos que receberam orientação nutricional para seguir um padrão alimentar saudável baseado no Guia Alimentar do Canadá. Os participantes foram divididos em três grupos: um seguiu uma dieta com restrição calórica e baixo consumo de laticínios; outro substituiu a restrição de 500 kcal pela inclusão de três porções diárias de laticínios integrais; e o terceiro consumiu as mesmas três porções diariamente, sem restrição energética. Entre os alimentos utilizados estavam leite integral (3,25% de gordura), iogurte grego (2% de gordura) e queijo (31% de gordura).

Os resultados mostraram que a inclusão dos laticínios integrais aumentou a ingestão de nutrientes importantes e frequentemente consumidos em quantidade insuficiente pela população, como proteínas e cálcio.

Os pesquisadores também observaram que os participantes que consumiram esses alimentos relataram maior saciedade, fator que pode contribuir para uma redução espontânea da ingestão calórica ao longo do dia. Assim, mesmo com o aumento do consumo de laticínios integrais, não houve ganho significativo de peso, aumento da gordura corporal nem alterações desfavoráveis em indicadores como glicemia e perfil lipídico quando comparados aos participantes que seguiram uma dieta com restrição calórica e baixo consumo de laticínios.

Mais do que a gordura: o contexto da alimentação faz a diferença

Segundo o nutricionista Pedro Perim, um dos principais méritos do estudo é reforçar que a qualidade da alimentação deve ser avaliada de forma ampla, e não apenas pela quantidade de gordura presente em um alimento.

“As evidências atuais indicam que a matriz dos alimentos pode influenciar o impacto dos nutrientes no organismo. No caso do leite, a gordura está inserida em um conjunto complexo formado por proteínas, lactose, cálcio e outros nutrientes. Uma vez que os alimentos são muito mais do que nutrientes isolados, é importante analisar todo esse conjunto para compreender seus efeitos sobre a absorção dos nutrientes e a resposta metabólica do organismo. Por isso, avaliar apenas o teor de gordura pode levar a interpretações equivocadas sobre seus efeitos na saúde”, explica o especialista.

Além disso, o nutricionista destaca que o leite é um alimento prático, presente na rotina dos brasileiros e continua sendo um importante aliado da alimentação saudável. “O leite é fonte de proteínas de alto valor biológico, cálcio e vitaminas do complexo B, e pode contribuir para um dia alimentar variado e nutritivo. Além disso, faz parte das recomendações do Guia Alimentar para a População Brasileira, que reconhece o leite longa vida como alimento minimamente processado e que pode compor uma alimentação equilibrada.”

Embora o estudo tenha utilizado como referência o Guia Alimentar do Canadá, que atualmente não estabelece uma recomendação específica para o consumo de laticínios, o cenário é diferente em outros países. Tanto o Guia Alimentar para a População Brasileira quanto o Guia Alimentar Americano reconhecem o leite como parte de um padrão alimentar saudável.

Para o Dr. Pedro Perim, outro aspecto importante é que essas novas evidências não surgem de forma isolada. “Os resultados deste estudo vão ao encontro de outras evidências recentes sobre o consumo de laticínios integrais e seu impacto positivo no controle do peso e na saúde.”

O nutricionista ressalta, porém, que os resultados não significam que exista um tipo de leite ideal para todas as pessoas. “A escolha entre leite integral, semidesnatado ou desnatado deve considerar as necessidades nutricionais, os objetivos e as condições clínicas de cada indivíduo. As evidências ampliam nosso entendimento sobre o leite integral e seus derivados, mas não substituem uma avaliação individual nem a orientação de um profissional de saúde.”

Dessa forma, o novo estudo fortalece um entendimento cada vez mais consolidado na ciência da Nutrição: mais importante do que analisar isoladamente o teor de gordura de um alimento é considerar a qualidade do padrão alimentar como um todo. Inserido em uma alimentação equilibrada, o leite — em suas diferentes versões — pode contribuir para a ingestão de nutrientes importantes e fazer parte de uma dieta saudável.

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