Câncer de intestino em jovens: por que os casos antes dos 50 anos estão aumentando?
Morte da atriz Lua Blanco, aos 39 anos, volta a chamar atenção para o câncer colorretal de início precoce. Maioria dos casos não está ligada a síndromes hereditárias conhecidas, enquanto pesquisadores investigam o papel de fatores metabólicos, comportamentais, ambientais e da microbiota intestinal

O câncer de intestino sempre esteve mais associado ao envelhecimento. A idade continua sendo um dos principais fatores de risco, mas um movimento observado nas últimas décadas vem mudando parte desse cenário: os diagnósticos de câncer de cólon e reto estão aumentando entre pessoas com menos de 50 anos em diferentes países.
A morte da atriz e cantora Lua Blanco, neste domingo (18), aos 39 anos, voltou a chamar atenção para o tema. Segundo informações divulgadas após sua morte, ela havia descoberto havia poucos meses um câncer de intestino em estágio avançado.
O caso se soma a outros diagnósticos que ganharam repercussão pública nos últimos anos, como o da cantora Preta Gil, mas não são episódios isolados que permitem falar em uma mudança epidemiológica. O aumento do chamado câncer colorretal de início precoce, diagnosticado antes dos 50 anos, já é objeto de pesquisas internacionais.
Nos Estados Unidos, o National Cancer Institute (NCI) acompanha essa mudança e aponta que a tendência de crescimento entre adultos jovens começou a aparecer por volta da década de 1990. Ao mesmo tempo, a ciência ainda não encontrou uma explicação única para o fenômeno.
“A primeira mensagem importante é que câncer de intestino não é uma doença exclusiva de pessoas mais velhas. A maior parte dos casos ainda ocorre nas faixas etárias mais avançadas, mas estamos observando uma mudança que merece atenção. Um adulto jovem com sintomas persistentes também precisa ser investigado”, explica a Dra. Rosane R. Johnsson, oncologista clínica do IOP – Instituto de Oncologia do Paraná.
Por que o câncer de intestino está aumentando entre os jovens?
Essa é justamente a pergunta que a ciência tenta responder.
Obesidade, sedentarismo, alimentação pobre em fibras, consumo de carnes processadas e em excesso de carne vermelha, tabagismo e bebidas alcoólicas estão entre os fatores já associados ao câncer colorretal. Nos casos de início precoce, no entanto, eles parecem contar apenas parte da história.
Um dado ajuda a entender a complexidade: embora algumas síndromes genéticas aumentem significativamente o risco de desenvolver a doença mais cedo, apenas cerca de 10% a 20% dos cânceres colorretais de início precoce são atribuídos a fatores hereditários, segundo o NCI. A maior parte dos casos, portanto, ocorre sem uma síndrome hereditária conhecida que explique o diagnóstico.
Uma das linhas de pesquisa passa pelo chamado exposoma, conceito usado para estudar o conjunto de exposições acumuladas por uma pessoa ao longo da vida e a maneira como elas interagem com características individuais. Alimentação, obesidade, atividade física, álcool, tabagismo, medicamentos, exposições ambientais e alterações metabólicas estão entre os elementos investigados. A microbiota intestinal também entrou nesse radar.
“Provavelmente estamos diante de uma combinação de fatores. Há hábitos de vida que sabemos que aumentam o risco, existem síndromes hereditárias e histórico familiar, mas também há muitos pacientes jovens que não se encaixam nesses grupos. Por isso, seria precipitado atribuir esse crescimento a uma única causa”, diz a Dra. Rosane.
Obesidade, metabolismo e estilo de vida estão no radar
As mudanças metabólicas e comportamentais observadas nas últimas décadas são outra frente importante de investigação. Obesidade e sedentarismo já são fatores conhecidos de risco para câncer colorretal, mas pesquisadores tentam compreender em que medida o aumento dessas condições entre pessoas mais jovens pode estar relacionado ao crescimento dos diagnósticos precoces.
Estudos recentes também investigam alterações metabólicas, como níveis elevados de insulina, além da interação entre alimentação, inflamação e microbiota intestinal. Os resultados ajudam a montar um quadro mais amplo, mas ainda não permitem afirmar que um único desses fatores seja responsável pela tendência.
Essa cautela é importante. Ter obesidade, por exemplo, não significa que uma pessoa desenvolverá câncer de intestino, assim como ter hábitos considerados saudáveis não elimina completamente o risco.
E o que a microbiota intestinal tem a ver com isso?
Nos últimos anos, o ambiente intestinal ganhou espaço nessa investigação.
Um estudo internacional identificou uma assinatura de mutações relacionada à colibactina, uma toxina produzida por determinadas cepas da bactéria Escherichia coli, com maior frequência em tumores de pacientes diagnosticados antes dos 40 anos.
O achado despertou interesse porque sugere que determinadas exposições ocorridas mais cedo na vida possam deixar marcas no DNA das células do cólon. Ainda assim, trata-se de uma linha de pesquisa. Não significa que uma bactéria específica seja, sozinha, a causa do aumento do câncer colorretal entre jovens.
É justamente a combinação entre genética, ambiente, metabolismo, comportamento e microbiota que está entre as hipóteses estudadas para compreender por que pessoas nascidas em gerações mais recentes parecem apresentar maior risco.
Genética explica os casos em pessoas jovens?
Explica uma parcela, mas está longe de responder por todo o fenômeno.
Algumas condições hereditárias aumentam significativamente o risco de câncer colorretal em idades mais baixas, especialmente a síndrome de Lynch e a polipose adenomatosa familiar. O histórico familiar também precisa ser considerado. Mas os dados do NCI mostram que os fatores hereditários conhecidos estão presentes em uma minoria dos cânceres colorretais de início precoce.
Na prática, isso significa que não ter casos de câncer de intestino na família não elimina a possibilidade da doença. E esse é um ponto particularmente importante entre os mais jovens. Quando nem o paciente nem o profissional de saúde esperam encontrar um câncer naquela idade, existe o risco de sinais persistentes serem inicialmente associados a condições benignas.
Sangue nas fezes em uma pessoa jovem não deve ser automaticamente atribuído a hemorroidas
Uma das análises mais abrangentes sobre o assunto ajuda a dimensionar esse problema. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no JAMA Network Open reuniu 81 estudos e mais de 24,9 milhões de pessoas com menos de 50 anos. Entre os pacientes com câncer colorretal de início precoce, 45% apresentaram sangue nas fezes, 40% dor abdominal e 27% alteração do hábito intestinal.
O estudo mostrou ainda outro dado relevante: atrasos entre o início dos sintomas e o diagnóstico foram frequentes. A mediana encontrada foi de quatro meses e a média, de pouco mais de seis meses. Ter sangue nas fezes, dor abdominal ou uma mudança no funcionamento intestinal não significa automaticamente câncer. O problema está em normalizar sintomas que persistem.
Perda de peso sem explicação e anemia também merecem investigação, especialmente quando não há uma causa definida. “Não é preciso transformar qualquer alteração intestinal em motivo de medo. O problema é normalizar um sintoma que persiste. Sangramento recorrente, mudança no funcionamento do intestino ou uma anemia sem explicação precisam ter sua causa esclarecida, independentemente da idade”, orienta a oncologista.
Brasil deve registrar mais de 53 mil novos casos de câncer de cólon e reto em 2026
O aumento entre jovens merece atenção, mas é importante colocá-lo em perspectiva: a maior parte dos diagnósticos ainda acontece em pessoas mais velhas. No Brasil, as estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (INCA) apontam 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto em 2026, sendo 26.270 entre homens e 27.540 entre mulheres. Excluindo os tumores de pele não melanoma, cólon e reto aparecem como o segundo tipo de câncer mais incidente nos dois sexos.
A nova estimativa do INCA vale para o triênio de 2026 a 2028 e prevê cerca de 53,8 mil novos diagnósticos da doença a cada ano. Os números brasileiros, entretanto, não devem ser usados para concluir que o país apresenta exatamente a mesma velocidade de crescimento entre jovens identificada em estudos realizados nos Estados Unidos ou na Europa. São populações e bases epidemiológicas diferentes.
O que os estudos internacionais deixam claro é que o câncer colorretal de início precoce deixou de ser tratado como uma ocorrência excepcional e passou a ser investigado como uma mudança que precisa ser compreendida.
É possível prevenir o câncer de intestino?
Nem todos os fatores de risco podem ser modificados, mas parte deles pode.
Manter o peso adequado, praticar atividade física regularmente e ter uma alimentação com frutas, verduras, legumes, cereais integrais e outras fontes de fibras estão entre as medidas recomendadas para redução do risco. Limitar o consumo de carnes vermelhas, evitar carnes processadas, não fumar e evitar bebidas alcoólicas também fazem parte das orientações de prevenção.
Há ainda uma característica importante do câncer colorretal: muitos tumores surgem a partir de pólipos, alterações que podem ser encontradas e retiradas antes que evoluam para câncer.
A colonoscopia permite visualizar o cólon e o reto e retirar pólipos durante o próprio procedimento. Em 2026, o SUS também passou a adotar o teste imunoquímico fecal, o FIT, como estratégia para detectar pequenas quantidades de sangue oculto nas fezes antes mesmo do aparecimento de sintomas, com encaminhamento para exames complementares quando necessário.
A indicação do rastreamento e o momento de iniciá-lo dependem da idade e do risco individual. Pessoas com histórico familiar relevante, síndromes hereditárias ou determinadas condições clínicas podem precisar de acompanhamento diferente daquele recomendado para a população geral.
“Prevenção não significa apenas fazer um exame. Significa conhecer o histórico familiar, reduzir fatores de risco modificáveis e não ignorar sintomas. E, quando existe indicação de rastreamento, realizá-lo no momento adequado. O aumento dos casos entre jovens reforça principalmente uma mudança de percepção: idade baixa, sozinha, não deve ser motivo para descartar a investigação”, conclui a Dra. Rosane R. Johnsson.
Sobre o Grupo Med4U
A Med4U é uma holding que engloba algumas das marcas mais reconhecidas no setor da saúde, oferecendo soluções integradas e inovadoras para pacientes e profissionais. Entre as empresas que fazem parte da Med4U estão o IOP (Instituto de Oncologia do Paraná), o IOP Educa, o IOP Pesquisa, o Valencis, a Spesia e o Oncoville. Também fazem parte a Santé Cancer Center, com unidades em Lages e Caçador, em Santa Catarina, e a Clínica Prognóstica Oncologia, sediada em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Juntas, essas instituições formam um grupo dedicado à excelência no cuidado oncológico, educação e inovação em saúde.
O IOP, a marca mais antiga do grupo, que completou 31 anos de atuação em 2026, continua sendo uma referência no tratamento do câncer. Com quatro sedes em Curitiba (PR), o IOP se destaca por suas parcerias estratégicas, como a aliança com o Hospital São Marcelino Champagnat que oferece um tratamento integrado e a parceria com o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, sendo a primeira clínica no sul do Brasil a integrar a Rede Einstein de Oncologia e Hematologia. O IOP também se destaca por ter o mais alto nível de acreditação de qualidade no Paraná (ONA 3).
O IOP oferece tratamentos avançados e humanizados, utilizando tecnologia de ponta e uma abordagem multidisciplinar, que inclui Nutrição, Psicologia, Enfermagem, Farmácia e Educador Físico. Além disso, terapias complementares como cromoterapia, aromaterapia e musicoterapia ajudam a proporcionar um cuidado mais completo e humanizado.
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IOP: Há 31 anos cultivando histórias, cuidando de pessoas.
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