Taxas de internação por AVC caem 54% em dois distritos atendidos por projeto de controle da hipertensão em São Paulo
Pesquisa da Fundação Novartis analisou dados de Itaquera e Penha entre 2016 e 2021, considerando a implementação da iniciativa CARDIO, que conta com a parceria da Umane e da BP na capital paulista
Um estudo conduzido pela Fundação Novartis identificou uma redução média de 54% nas taxas de internação por acidente vascular cerebral (AVC), padronizadas por idade, em dois distritos de São Paulo atendidos pelo CARDIO, uma iniciativa multissetorial de saúde cardiovascular desenvolvida em parceria com governos, organizações locais, sociedades médicas, como a Sociedade Brasileira de Cardiologia, com execução da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e apoio da Umane na capital paulista.
A pesquisa analisou dados de Itaquera e Penha entre janeiro de 2016 e setembro de 2021, considerando os períodos anteriores e posteriores ao início da implementação do CARDIO, em 2018. Ao todo, foram analisadas 4.491 hospitalizações por AVC, obtidas a partir de informações do DATASUS. Durante a avaliação dos resultados do projeto, o risco de internação por AVC foi 24,5% menor em Itaquera e Penha, considerados conjuntamente, do que no restante da cidade de São Paulo.
“Os resultados mostram o potencial de iniciativas que fortalecem o rastreamento, manejo e controle da hipertensão na atenção primária. Ao melhorar o diagnóstico, o tratamento e o acompanhamento dos pacientes, buscamos reduzir não apenas a pressão arterial, mas também o risco de complicações graves, como o AVC”, afirma Dr. Fernando Ribas, cardiologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo e Coordenador da iniciativa CARDIO.
Entre 2016 e 2021, foram registradas 2.204 internações por AVC em Itaquera e 2.287 na Penha. Desse total, cerca de 34% ocorreram entre pacientes com 59 anos ou menos.
Em Itaquera, a taxa de internação por AVC, padronizada por idade, caiu 60%, passando de 129,1 para 51,5 hospitalizações por 100 mil habitantes. Na Penha, a redução foi de 48%, de 111,9 para 58,1 internações.
O estudo também identificou uma diminuição nas taxas de mortalidade hospitalar por AVC, calculadas em relação à população. Em Itaquera, a queda foi de 40% entre 2016 e 2021, enquanto, na Penha, a redução chegou a 45%, de 18,5 para 10,2 mortes por 100 mil habitantes.
Resultados em comparação com o restante da cidade
Além de analisar a evolução dos indicadores ao longo dos anos, os pesquisadores compararam os resultados de Itaquera e Penha com os registrados nos demais distritos de São Paulo. Entre o período anterior à intervenção e a etapa de acompanhamento da iniciativa, houve redução de 33% no risco de hospitalização por AVC em Itaquera, contra uma queda de 10% no restante da cidade.
Segundo o estudo, antes da implementação do CARDIO, não havia diferença estatisticamente significativa no risco de hospitalização por AVC entre Itaquera e as demais regiões da capital. A mudança passou a ser observada durante o acompanhamento, quando o risco foi 31% menor em Itaquera e 18% menor na Penha, em comparação com os demais distritos paulistanos.
A hipertensão arterial é um dos principais fatores de risco para o AVC. Conforme indicado no estudo, mesmo reduções relativamente pequenas na pressão arterial podem diminuir entre 20% e 40% o risco de sofrer um AVC, o que reforça a importância do diagnóstico precoce e do tratamento contínuo.
“A hipertensão, muitas vezes, não apresenta sintomas, mas pode provocar consequências graves quando não é controlada. Por isso, é fundamental que os serviços de saúde consigam identificar os pacientes, acompanhar sua evolução e garantir que o tratamento seja mantido assegurando controle apropriado dos níveis pressóricos”, afirma Dr. Álvaro Avezum, cardiologista e membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia-SBC.
Prevenção e fortalecimento da atenção primária
O CARDIO busca fortalecer o cuidado de pessoas com hipertensão por meio da qualificação do atendimento, da ampliação do acesso ao diagnóstico e tratamento e do uso de dados para orientar decisões em saúde pública. A iniciativa se estrutura em seis frentes de atuação: melhoria da qualidade do cuidado, acesso precoce aos serviços, aprimoramento de políticas públicas, uso de tecnologias digitais e dados, colaboração entre diferentes setores e fortalecimento da gestão local.
Em São Paulo, a implementação começou em julho de 2018, em seis unidades de saúde de Itaquera, mas foi ampliada, ao longo de 2020, para outras 18 unidades, incluindo a Penha. Hoje, a iniciativa está implementada em 100% das 475 Unidades Básicas de Saúde do município.
Pesquisas anteriores sobre o CARDIO já haviam identificado avanços no controle da pressão arterial entre a população atendida. Na capital paulista, as taxas de controle da hipertensão quase triplicaram nos dois primeiros anos de implementação da iniciativa. A nova pesquisa buscou avaliar se esses avanços também estavam associados à redução de desfechos mais graves, como hospitalizações e mortes por AVC.
Para elaborar a análise, os pesquisadores utilizaram registros do Sistema Único de Saúde (SUS), disponibilizados pelo DATASUS, sobre pacientes com 20 anos ou mais. Também foram considerados possíveis efeitos da pandemia de Covid-19 sobre os indicadores de hospitalização, mas a conclusão dos pesquisadores indica que a crise sanitária não modificou a tendência de redução de risco nas dinâmicas analisadas.
Sobre a Umane
A Umane é uma organização da sociedade civil, independente, isenta e sem fins lucrativos que apoia iniciativas no âmbito da saúde pública com o objetivo de contribuir para um Sistema Único de Saúde (SUS) mais resolutivo e de melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem no Brasil. Em 2024 a Umane apoiou 33 projetos, realizados de forma colaborativa com 89 parceiros, entre diversos setores da saúde, da sociedade civil e do poder público.
A atuação da Umane se dá por meio de três programas: o de Atenção Integral às Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), com iniciativas de controle dos fatores de risco, rastreamento, ampliação do acesso à saúde e ao monitoramento dos fatores de risco na Atenção Primária à Saúde; o Fortalecimento da Atenção Primária à Saúde (APS) como ordenadora do cuidado no SUS, por meio do apoio a iniciativas que visem melhorias operacionais, de produtividade de equipes, de integração de serviços e da incorporação de novas tecnologias ao sistema de saúde e o programa Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente, financiando programas que acompanhem e monitorem desfechos desfavoráveis durante a gestação e as condições de saúde de crianças e adolescentes no contexto das Doenças Crônicas Não Transmissíveis e dos fatores de risco.
