Apagão de informação: por que a digitalização ainda não evita prejuízos na indústria brasileira?

Apagão de informação: por que a digitalização ainda não evita prejuízos na indústria brasileira?

Enquanto fábricas brasileiras coletam cada vez mais dados sobre suas operações, boa parte dessas informações ainda não vira decisão rápida o suficiente para evitar prejuízo

A indústria brasileira nunca gerou tantos dados sobre sua própria operação. Sensores, softwares de gestão e sistemas de automação registram, em tempo real, informações sobre o funcionamento de máquinas, linhas de produção e equipes. O problema é que grande parte dessas informações não chega a virar decisão a tempo, e é justamente nesse intervalo que moram os prejuízos.

Esse descompasso tem nome entre quem estuda o setor: um apagão que não é de energia, mas de informação. A fábrica sabe que algo está errado, o dado está ali, registrado, mas a informação não chega organizada até quem precisa decidir com a rapidez necessária para evitar uma parada não planejada, um desperdício de matéria-prima ou um retrabalho.

O tamanho desse descompasso já aparece em pesquisa recente. Segundo a Pesquisa de Inovação (PINTEC), divulgada em 2026, 84,9% das indústrias brasileiras utilizam pelo menos uma tecnologia digital avançada, como automação, internet das coisas (IoT) ou inteligência artificial. Apesar do avanço, o mesmo levantamento aponta que essa digitalização ainda convive com processos fragmentados e baixa integração de informações dentro das operações.

“Muitas empresas já têm o dado, o sensor está instalado, o sistema está rodando, só que a informação não chega organizada até quem toma a decisão. O resultado é que o time de manutenção continua reagindo ao problema, em vez de antecipar”, explica Eymard, co-fundador da Melvin.

Esse gargalo aparece com mais força justamente na manutenção industrial, área que depende diretamente da velocidade da informação para funcionar de forma preventiva, e não apenas corretiva. Quando o dado sobre o estado de um equipamento demora para chegar até a equipe responsável, a falha já aconteceu, e o que poderia ser um ajuste simples vira uma parada de produção.

“O papel da tecnologia aqui não é só coletar mais dados, é organizar isso de um jeito que a equipe consiga agir rápido. Informação que demora a chegar tem o mesmo efeito de informação que não existe”, complementa Igor, co-fundador da Melvin.

Resolver esse gargalo passa por transformar dados soltos em rotina de trabalho, com alertas claros, prioridades bem definidas e processos que conectem o que a máquina está “dizendo” com a ação da equipe de manutenção. É esse tipo de organização que evita que a indústria continue tomando decisões tarde demais, mesmo cercada de informação.

Para o setor, o desafio dos próximos anos não é mais apenas digitalizar a fábrica, mas garantir que o volume crescente de dados gerados todos os dias realmente vire eficiência operacional, e não apenas mais um número acumulado em um sistema que ninguém tem tempo de olhar.

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